
O Cálice da morte e a Glória da Cruz : O Clímax da Filosofia e da Fé
Na galeria das grandes mortes da história, duas figuras se destacam como ícones de suas tradições: Sócrates e Jesus. Ambos morreram injustamente. Ambos tiveram discípulos aos seus pés. Ambos encararam a morte com consciência. Mas é aí que as semelhanças cessam. Porque enquanto a morte de Sócrates é a celebração da razão, a morte de Jesus é o clímax da redenção.
Oscar Cullmann, em seu estudo clássico, ousou traçar este contraste: de um lado, a morte ideal do sábio grego; do outro, a morte escandalosa do Salvador judeu. Dela Collins, na Bíblia TEB, chama atenção para esse mesmo contraste, ressaltando que o ideal filosófico da morte calma e lúcida não encontra paralelo no Cristo crucificado.
Sócrates, segundo Platão no Fédon, foi condenado a beber cicuta por corromper a juventude e desafiar os deuses da pólis. Seus discípulos o cercaram, alguns chorando, mas ele os consolava. Tomou o cálice com serenidade, dialogou até os últimos momentos e morreu lentamente, sem dor visível, como quem simplesmente transita de um estado ao outro da existência. A filosofia, para ele, era preparação para a morte — e ele a abraçou como libertação da alma.
Mas Jesus… ah, Jesus não morreu como Sócrates.
Jesus não buscou consolar seus discípulos com argumentos racionais sobre a imortalidade da alma. Ele os advertiu, chorou, suou sangue no Getsêmani. Não ergueu a taça da morte com tranquilidade — pediu, se possível, que o cálice fosse afastado. Mas o bebeu mesmo assim. A diferença não está apenas no modo, mas no motivo.
Sócrates morreu por uma ideia. Jesus morreu por uma missão. Sócrates morre de forma quase estética; Jesus, de forma visceral. Ele foi cuspido, açoitado, zombado, pendurado entre criminosos. Seu cálice era amargo: era feito de pecado, dor e abandono. Quando lhe ofereceram vinagre, virou o rosto. Não havia dignidade na cruz aos olhos humanos, apenas escárnio e vergonha.
Mas foi ali, no ponto mais baixo da agonia, que a glória de Deus brilhou mais alto. O grito “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” ecoa ainda hoje não como fracasso, mas como identificação com toda dor humana. E quando diz: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”, não entrega apenas a vida, mas todo o destino da humanidade.
A morte de Sócrates é nobre, mas impotente. A de Jesus é sangrenta, mas salvadora. Sócrates morreu por si. Jesus morreu por nós.
A cruz não é o fim da sabedoria. É o seu começo. Porque “a loucura de Deus é mais sábia que os homens” (1 Co 1:25). E é nessa cruz, onde a filosofia cessa e a fé começa, que somos reconciliados com o Pai.
A cicuta de Sócrates instrui.
O sangue de Jesus redime.
Jesiel Cruz
Articulista, Escritor e Conferencista com ampla formação multidisciplinar: Graduado em Teologia, Filosofia, Geografia e Pedagogia; Pós-Graduado em Administração Pública, Docência Superior, Sexualidade Humana e Coordenação Pedagógica. Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação, atua como Pastor, Consultor e Professor Universitário. Membro da Academia Brasileira de Teologia de Letras e Doutor _Honoris Causa_ em Teologia.